Inteligência

(...) uma capacidade geral que, entre outras coisas, envolvem a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de maneira abstrata, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender pela experiência. Não é apenas aprender com livros, habilidades acadêmicas específicas ou conseguir fazer provas bem. Reflete uma capacidade mais ampla e profunda de compreender seu ambiente – 'perceber', 'fazer sentido' das coisas, ou 'saber' o que precisa ser feito. Inteligência assim definida, pode ser medida, e testes de inteligência a mede bem”


A curiosidade das pessoas em relação às definições da inteligência existe há muitos anos e as tentativas de defini-la estão presentes em seu dia a dia fazendo com que seja vista como sinônimo de “QI”, “habilidade mental geral”, “testes de performance cognitiva”, entre outras nomenclaturas que acabam por simplificar um assunto tão amplo e importante. Dicionários online podem ajudar a esclarecer tais dúvidas, porém, oferecem definições resumidas, como “inteligência é a capacidade para adquirir e aplicar conhecimento”, “inteligência é a habilidade para aprender, entender ou lidar com situações novas” ou ainda definindo o tema com palavras como “entendimento; intelecto; mente”. Esta busca incessante em compreender o que a inteligência pode ser, pode estar associada ao grande valor ofertado dentre as culturas contemporâneas para o título de “indivíduo inteligente”, tornando-o algo de grande desejo social. Nesse sentido, educadores, psicólogos, cientistas sociais, dentre outros profissionais envolvidos com o tema, argumentam que é difícil esquivar-se das noções populares e fazer com que as definições científicas sejam valorizadas (Roberts & Lipnevich, 2012).

Na psicologia, muitas áreas estão envolvidas em pesquisar a respeito da inteligência. Especificamente no que diz respeito à avaliação psicológica, área que é responsável pela operacionalização das teorias psicológicas, tornando possível a observação de suas características através da integração entre teoria e prática, são crescentes os esforços em desfazer ideias errôneas sobre o assunto. É comum encontrar opiniões dizendo que as teorias de inteligência e os testes de QI estão ultrapassados. Porém, ao examinar a literatura científica, encontra-se o oposto, ou seja, as antigas teorias da inteligência têm evoluído gradualmente em um processo de integração, assim como, os testes voltados à sua avaliação estão cada vez mais sofisticados, o que nos permite observar que as definições e considerações acerca do tema, atualmente, são mais balanceadas e não tão extremas como as noções populares encontradas na mídia (Primi, 2003).

Dessa forma, a seguir, será apresentado um histórico do percurso teórico e científico das teorias da inteligência mais difundidas dentre os pesquisadores do tema, as quais também contribuíram para que se chegasse nos conhecimentos atuais e mais aceitos pela comunidade de pesquisadores nacionais e internacionais.

Na primeira metade do século XX os pesquisadores realizavam estudos estatísticos a fim de tentar compreender a estrutura e definição da inteligência, ou seja, quantas e quais poderiam ser as características associadas às capacidades intelectuais (Primi, 2003). O psicólogo britânico Charles Spearman desenvolveu a Teoria dos Dois Fatores da inteligência ou Teoria Bifatorial. Para este autor, a inteligência estaria dividida em um fator geral (fator g), o qual possibilitaria aos indivíduos a performance em todas as tarefas intelectuais, podendo ser representado por uma energia, de base neurológica e que seria investida nas tarefas a que estes indivíduos fossem expostos e em fatores específicos (fator s), os quais seriam associados ao desempenho apenas em tarefas específicas de testes cognitivos (Roberts & Lipnevich, 2012; Schelini, 2006).

Alguns anos depois, especificamente na década de trinta, uma importante teoria alternativa à teoria dos dois fatores de Spearman surgiu, desenvolvida por Louis Thurstone e chamada de Modelo de Habilidades Mentais Primárias. Este autor utilizou o método estatístico de análise fatorial múltipla e propôs a existência de um pequeno número de fatores independentes que seriam necessários para compreender o comportamento inteligente. Estes fatores ou habilidades mentais primárias, quando analisados coletivamente compreenderiam a inteligência. Seriam os seguintes: compreensão verbal, fluência verbal, facilidade numérica, visualização espacial, memória, raciocínio indutivo, raciocínio dedutivo, raciocínio para problemas práticos e velocidade perceptual (Roberts & Lipnevich, 2012; Schelini, 2006).

Nesta linha de teorias que representam a inteligência através de uma gama de fatores, pode-se citar também a teoria de Guilford, a qual elencou 150 (alguns escritos dizem 180) fatores para explicar o assunto. Nesta teoria, toda tarefa mental envolveria três aspectos: operação, conteúdo e produto, além de incorporar o pensamento divergente (criatividade) e a cognição comportamental (inteligência social) à inteligência. Porém, o modelo de Guilford foi extensivamente criticado em seguida ao seu desenvolvimento (Roberts & Lipnevich, 2012).

No que diz respeito aos teóricos mais contemporâneos, os que mais se destacam neste assunto são Howard Gardner e Robert Sternberg, os quais propuseram modelos de inteligência que tentaram compreender e lidar tanto com questões internas quanto externas do ser humano. Gardner desenvolveu a Teoria das Inteligências Múltiplas, a qual não foi baseada em um modelo de evidências empíricas, mas sim na análise de informações derivadas de diferentes fontes, tais como: psicologia evolucionária, neuropsicologia, antropologia, filosofia, pesquisa de superdotação e psicologia clínica. Dessa forma, encontrou a existência de sete tipos diferentes de inteligência, sendo eles: inteligência linguística – envolve a capacidade de utilizar a linguagem para atingir objetivos e a sensibilidade com a linguagem escrita e falada; inteligência viso-espacial – habilidades que auxiliam os indivíduos a ler um mapa, a chegar de um lugar a outro pelo caminho mais curto e a jogar jogos de computador eficientemente; inteligência lógicomatemática – habilidade para resolver problemas matemáticos ou provas matemáticas complexas e facilidade para atuar em análises estatísticas; inteligência musical – habilidade para cantar, compor músicas ou tocar instrumentos musicais; inteligência corporal-cinestésica – habilidade para dançar ou participar de qualquer esporte; inteligência interpessoal – associa-se às habilidades de se relacionar com outras pessoas, conseguindo compreender como estão se sentindo; inteligência intrapessoal – utilizada para entender a si próprio. Além destes sete tipos, alguns anos depois Gardner incluiu um oitavo tipo, chamado de inteligência naturalística que se define pelas habilidades de reconhecer e identificar a fauna e a flora ou outros tipos de classes de objetos (Roberts & Lipnevich, 2012).

Ainda nesta perspectiva de autores contemporâneos, Sternberg desenvolveu a Teoria Triárquica da Inteligência, com o objetivo de ir “além do QI”, utilizando o argumento de que a inteligência “acadêmica”, avaliada pelos testes psicométricos, é imperfeita para definir o funcionamento inteligente do dia a dia (Roberts & Lipnevich, 2012). Esta teoria se divide em três partes ou em três subteorias:

Subteoria Componencial – Inteligência e o mundo interno do indivíduo: este tipo inclui três componentes. Os primeiros são os componentes de performance e relacionam-se aos processos cognitivos tais como inferência, mapeamento de objetos, codificação e assim por diante. Os segundos são os metacomponentes e estão associados aos processos executivos que são usados pelos indivíduos para planejar o que irão fazer, monitorar processos em andamento e avaliar seus efeitos depois de já estarem completos. E os terceiros são os componentes de aquisição de conhecimento, os quais são usados para diferenciar informações relevantes das irrelevantes e combinar as informações selecionadas e transformá-las em algo plausível e integrado.

Subteoria Experiencial – inteligência e experiência: neste tipo, duas habilidades são encontradas. A primeira delas é a habilidade em lidar com novidades, a qual se relaciona à capacidade dos indivíduos inteligentes em resolver tarefas que nunca foram realizadas anteriormente (por exemplo: aprender um novo idioma ou tornar-se familiarizado com um novo sistema de computador). A segunda habilidade é a de automatizar o processamento de informação, a qual é vista, segundo este autor, como um dos maiores aspectos do comportamento inteligente.

Subteoria Contextual – inteligência e o mundo externo do indivíduo: dividida em três diferentes objetivos. O primeiro deles é o de adaptação ao ambiente, ou seja, a capacidade de se adaptar aos diferentes componentes que podem estar presentes no contexto em que o indivíduo está inserido. O segundo refere-se à capacidade de moldar o ambiente, isto é, quando adaptar-se não é possível, indivíduos inteligentes conseguem moldar e mudar o ambiente. E, por fim, o terceiro objetivo relaciona-se à seleção de um novo ambiente, o qual ocorre quando os dois anteriores falharam e surge a necessidade de deixar um ambiente e escolher outro.

A fim de finalizar o apanhado histórico da inteligência, é necessário abordar a teoria mais bem difundida entre os pesquisadores nacionais e internacionais para explicar o funcionamento intelectual dos indivíduos. Esta teoria é denominada Teoria CHC ou Modelo Cattell-Horn-Carroll e envolve dois dos mais proeminentes modelos teóricos psicométricos de habilidades cognitivas: a teoria Gf-Gc de Horn-Cattell e a teoria dos três estratos de Carroll (Schneider & McGrew, 2012). Na segunda metade do século XX, Cattell iniciou o desenvolvimento do modelo integrado hierárquico chamado de Teoria Gf-Gc (Primi, 2003), após analisar as correlações entre as capacidades primárias de Thurstone e o fator g da teoria de Spearman e constatar a existência de dois fatores gerais, chamados de inteligência fluida e inteligência cristalizada (Schelini, 2006; Schneider & McGrew, 2012).

O primeiro fator (inteligência fluida – gf) relaciona-se aos componentes não-verbais e pouco depende de fatores culturais ou conhecimentos previamente adquiridos, pois, associa-se mais às operações mentais utilizadas em situações novas e que não podem ser executadas automaticamente. Este tipo de inteligência também é mais determinado por aspectos genéticos e opera em tarefas que requerem formação e reconhecimento de conceitos, identificação de relações complexas, compreensão de implicações e realização de inferências. A inteligência cristalizada (gc) por sua vez, é representada pelas capacidades exigidas em problemas complexos cotidianos e é desenvolvida a partir de experiências culturais e educacionais, estando presente na maioria das atividades escolares. Estudos afirmam que a inteligência cristalizada evolui com o aumento da idade enquanto a fluida começa a declinar após os 21 anos (Schelini, 2006).

Segundo Schneider e McGrew (2012), o ponto mais importante relacionado ao surgimento da teoria Gf-Gc não foi a descoberta de que existe mais de um fator geral para explicar a inteligência, mas sim, a possibilidade de explicar as diferenças individuais, ou seja, Cattell argumentava que a diferenciação da inteligência em fluida e cristalizada tornou possível compreender, por exemplo, que pessoas que possuem baixo nível de inteligência fluida podem ter maiores limitações para adquirir e reter novo conhecimento o que pode influenciar seu processo de aprendizagem.

Seguindo com os estudos da teoria desenvolvida por Cattell, inicialmente Horn acrescentou à dicotomia Gf-Gc quatro capacidades cognitivas: processamento visual, memória de curto prazo, armazenamento e recuperação a longo prazo e velocidade de processamento. Posteriormente, incluiu mais duas: rapidez para a decisão correta e processamento auditivo e, ainda algum tempo depois, descobriu a existência do fator associado ao conhecimento quantitativo e outro relacionado à leitura-escrita, originando a estrutura de dez capacidades, quando considerados também os fatores gf-gc (Schelini, 2006; Schneider & McGrew, 2012).

Em 1993, um terceiro autor fez importantes contribuições à teoria Gf-Gc. John B. Carroll analisou 1500 artigos e obteve 461 conjuntos de dados, os quais incluíam os mais importantes estudos da estrutura da inteligência feitos pela abordagem psicométrica e, como produto final destas análises, desenvolveu a Teoria dos Três Estratos (Primi, 2003). Este modelo é dividido em três camadas: a camada I é formada por capacidades específicas, as quais são dispostas abaixo dos fatores da camada II e refletem os efeitos das experiências e da aprendizagem dos indivíduos. A camada II é composta por uma grande variedade de comportamentos, sendo constituída por oito fatores gerais e a camada III compõe-se por uma única capacidade geral, chamada de fator g. Os oito fatores constituintes da camada II são: inteligência fluida, inteligência cristalizada, memória e aprendizagem, percepção visual, percepção auditiva, capacidade de recuperação, rapidez cognitiva e velocidade de processamento. Cada um deles associa-se à inteligência geral da camada III e tem suas capacidades específicas, que consistem a camada I (Schelini, 2006).

A semelhança da teoria dos três estratos de Carroll com a concepção moderna de Horn para a teoria Gf-Gc foi o que tornou possível a integração realizada por McGrew e Flanagan em 1998, originando o modelo que é atualmente mais reconhecido e utilizado para definir inteligência, denominado de Teoria CHC das Habilidades Cognitivas, conforme citado anteriormente. Para que esta integração ocorresse, alguns critérios deveriam ser obedecidos: manter o fator de Raciocínio Quantitativo separado da Inteligência Fluida, inserir as capacidades de leitura e escrita como um fator geral de Leitura e Escrita, incluir as capacidades de conhecimento fonológico no fator geral de Processamento Auditivo, manter as capacidades de Memória de Curto Prazo a um fator geral e inserir as capacidades de armazenamento e recuperação em um fator geral de Recuperação. Portanto, neste novo modelo foram mantidas as dez capacidades gerais de Horn-Cattell, porém, a elas foram relacionadas a maioria das capacidades específicas da camada I proposta por Carroll (Primi, 2003; Schelini, 2006).

De maneira geral, o modelo que constitui a Teoria CHC consiste em uma visão multidimensional da inteligência, deixando de lado a visão unidimensional que dominou o desenvolvimento dos primeiros testes psicométricos e as primeiras definições deste tema. O objetivo desta teoria é reconhecer a existência do fator g, porém, enfatizar também que a inteligência se compõe de outras capacidades amplas, presentes no segundo nível da hierarquia, além de 73 fatores específicos (terceiro nível), que podem ser avaliados pelos testes de inteligência e ajudar na compreensão das habilidades cognitivas dos indivíduos (Primi, 2003).

Para finalizar, é importante destacar que esta teoria tem sido utilizada na análise dos principais instrumentos psicológicos que tem como objetivo avaliar a inteligência e o que os autores têm concluído é que nenhuma bateria disponível consegue abarcar todas as capacidades que representam a inteligência. Isto ocorre pelo fato de que estas baterias são compostas por subtestes que avaliam vários fatores específicos da inteligência e não sua estrutura total e, algumas delas, culminam em uma nota global intitulada de QI. Neste sentido, o QI encontrado pelo teste A não necessariamente será igual ao fornecido pelo teste B, pois o conteúdo avaliado pelos instrumentos é diferente. O QI deve ser compreendido apenas como uma escala numérica padronizada e o seu significado deve ser interpretado a partir da combinação de fatores específicos de determinado teste ou bateria (Primi, 2003).

Referências
Primi, R. (2003). Inteligência: Avanços nos Modelos Teóricos e nos Instrumentos de Medida. Avaliação Psicológica, 1, 67-77.

Roberts, R. D., & Lipnevich, A. A. (2012). From General Intelligence to Multiple Intelligences: Meanings, Models, and Measures. In K. R. Harris, S. Graham, T. Urdan, S. Graham, J. M. Royer, & M. Zeidner (Eds.), APA handbooks in psychology. APA educational psychology handbook, vol.2. Individual differences and cultural and contextual factors (pp. 33-57).

Schneider, W. J., & McGrew, K. S. (2012). The Cattell-Horn-Carroll Model of Intelligence. In D. P. Flanagan & P. L. Harrison (Eds.), Contemporary intellectual assessment: Theories, tests, and issues, 3rd edition, (pp. 99-144). Publisher: Guilford Press.

Schelini, P. W. (2006). Teoria das inteligências fluida e cristalizada: início e evolução. Estudos de Psicologia (Natal), 11(3), 323-332. http://dx.doi.org/10.1590/S1413294X2006000300010. Gottfredson, L. S. Mainstream science on intelligence: an editorial with 52 signatories, history, and bibliography. Intelligence 24, 13–23 (1997).